quarta-feira, 9 de março de 2011

O poder nocivo dos pensamentos


O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) é um quadro psicológico caracterizado por dois elementos principais: 1) as obsessões, que são pensamentos desagradáveis, geralmente com conteúdos de antecipação de algo trágico (como a morte de familiares), e de caráter invasivo (a pessoa sente que não tem controle sobre eles); e 2) as compulsões, que são comportamentos ou rituais de qualquer tipo que têm função de eliminar as obsessões. Compulsões podem ter formas variadas.


Mariana vai lavar um prato depois do almoço, e de repente é acometida pelo pensamento de que a mãe vai morrer. Ela sente que se lavar o prato com aquilo em mente, o pensamento vai se concretizar. Não importa o quão irracional seja o pensamento: ela SENTE que vai acontecer. E por isso ela lava o prato tentando pensar algo positivo. Mas não consegue. Frustrada, ela lava o prato de novo, desta vez tentando manter o pensamento “certo”. Não consegue, e lava de novo... e de novo... e de novo...

Assim funciona o TOC. Mas este não é um texto sobre TOC, e não é sobre qualquer tipo de transtorno ou “doença” psicológica; é um texto sobre pessoas comuns, e como elas funcionam.

O exemplo do TOC é um caso extremo para mostrar como pensamentos desagradáveis podem gerar ansiedade e desconforto. Pessoas com casos graves de TOC podem lavar um prato, ou tomar um banho, ou fazer uma oração dezenas de vezes até se darem por satisfeitas. Aos olhos externos, aqueles comportamentos são absurdos; mas a pessoa com TOC prefere fazer aquilo à se submeter ao desconforto dos pensamentos obsessivos.

No nosso dia-a-dia, frequentemente nos deparamos com pensamentos desagradáveis também: preocupações com eventos futuros, medos sobre infortúnios, antecipação de momentos importantes, arrependimentos de coisas que fizemos, planejamentos, etc. Esses pensamentos geram ansiedade. Pode parecer uma asserção óbvia à primeira vista, mas não é. A maioria das pessoas ansiosas não sabem identificar com clareza a origem de sua ansiedade. Elas não sabem que, inadvertidamente, produzem sua própria ansiedade através de seus pensamentos.

Determinado nível de ansiedade é normal. Até certo ponto, é inevitável que pensamentos como os citados acima gerem algum nível de ansiedade. O problema ocorre quando tais pensamentos se perpetuam por um tempo maior do que o necessário, e a ansiedade se torna mais crônica, generalizada, e parece estar desvinculada de tais pensamentos, sem causa aparente.

Ao contrário do que acontece no TOC, muitas vezes nos engajamos deliberadamente em pensamentos ansiógenos.


Marcelo vai fazer uma apresentação na faculdade na próxima semana. Ele domina bem o tema e geralmente não tem dificuldades visíveis para falar em público, mas está ansioso. Ele não quer que nada saia errado. Ele fica pensando sobre como vai ser, o que pode acontecer de errado. Revê o texto várias vezes, escreve lembretes em locais visíveis de sua casa. Às vezes ele reconhece que não há motivos para achar que algo sairá errado, e fica se convencendo de que tudo vai sair bem, relembrando todas suas apresentações passadas nas quais nada deu errado. Mas mesmo fazendo isso, ele está deliberadamente se engajando em pensamentos que lhe trazem ansiedade.

Marcelo poderia me argumentar: “eu só estou me precavendo para que nada dê errado na apresentação!”, ou então “quando eu digo para mim mesmo que nada vai dar errado, isso me faz sentir melhor!”. Marcelo está certo. O problema é que, independentemente do conteúdo exato de tais pensamentos, eles geram ansiedade a partir do momento que fazem parte daquele grupo temático ao qual o evento ansiógeno está ligado: a apresentação.

Note que não há de fato nada a ser decidido sobre a apresentação de Marcelo. Uma vez que ele de fato domina o assunto, os pensamentos desse grupo temático não parecem ter qualquer utilidade. Apesar disso, Marcelo pode se engajar em tais pensamentos por muito tempo, e quanto mais o fizer, mais ansioso ficará.

O exemplo de Marcelo ainda não parece muito nocivo por tratar de um evento pontual (uma apresentação). As coisas se complicam quando os pensamentos giram em torno de algo que está no passado, ou em algum lugar incerto do futuro, como futuro profissional, incômodos em relacionamentos, frustrações passadas, ou etc. Não existe um fim determinado para quando tais pensamentos devem acabar. Algumas pessoas têm mesmo o hábito de pensar demais sobre praticamente tudo que acontece em suas vidas. Essas pessoas são muito ansiosas.


Os seres humanos são treinados a resolverem problemas através do pensamento. É uma habilidade incrível da qual somos dotados. E funciona! O problema é que nem sempre usamos essa capacidade de forma adequada. Deixo claro: pensar sobre problemas não é um problema! Apenas quando o fazemos em excesso, e sem visar uma resolução.


Diego acabou de terminar um namoro de dois anos com Aline. Depois de dois anos de desgaste, Diego sabe que não há como seu relacionamento com Aline possa dar certo, mas mesmo assim ele ainda gosta dela e pensa nela. Quando sente saudades de Aline, Diego fica pensando no que ela está fazendo naquele momento, como ela está. Fica relembrando de bons e maus momentos da história dos dois. Fica imaginando diálogos completos com ela. Diego não pretende voltar com Aline, e na verdade nenhum desses pensamentos parece ter qualquer propósito. Mas eles deixam Diego ansioso, e mesmo assim, Diego os cultiva todo o tempo.


Então, o que fazer? Simplesmente devo parar de pensar nas coisas que me trazem ansiedade?

Sim!

Exercício para pessoas ansiosas

1 – Nossa mente não para de funcionar, formando uma corrente de pensamentos mais ou menos conexa que flui de forma quase automática. Aprenda a identificar seus pensamentos. Observe-se. No quê você pensa?
2 – Quando perceber que passa muito tempo pensando em problemas específicos, pergunte-se: Este pensamento me ajuda? Estou chegando a uma solução? Ele visa um objetivo final?
3 – Se a resposta for “não”, tente cortar o pensamento. Simplesmente substitua-o por algo completamente não relacionado... como um filme, um jogo de futebol, algo interessante que leu. Não tente argumentar, racionalizar ou corrigir o pensamento; apenas substitua-o. E, é claro, não troque um problema por outro.
4 – Seu pensamento “chato” irá voltar, sem dúvidas. Continue expulsando-o de sua consciência. Em algum momento ele vai se cansar e parar de te perturbar.

Isso funciona para diminuir os níveis de ansiedade? Minha experiência em consultório tem mostrado que sim. É simples, mas não é fácil. É um hábito que deve ser exercitado. Faça o teste.

11 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Boa noite venho atravez dessa msg pedi ajuda á ti já não aguento mais estou sendo escravo de pensamentos loucos sou ex usuario de crack obs usava de vez em quando não constante hoje estou livre dessa porcaria mais tenho medo e manias uma delas que agora não sai da minha cabeça é achar que algumas ou alguem me odeia e quer me fazer mal ja faz dias que vejo uma ferida ou uma picada acho que alguem pertod e mim tem inveja de mim me perfurou querendo me passar aids hiv não sei mais o que fazer acho que todos me seguem que querem fazer mal pra mim algum tempo atraz aconteceu que eu achei que alguem estava querendo me matar passou sem tratamento de nada parou essas paranoias hoje nao consigo tirar da cabeça que um colega de profissao me espetou com agulha e me transmitiu alguma doença ahh Doutor ta sendo duro estou me sentindo escravo desses pensamentos loucos poderia me indicar o que fazer sou um cara de bem com a vida amo temo a Deus e amo minha familia so que fico com isso na cabeça tenho tbm muito medo da morte nao posso passar na frente de um cimiterio me sinto muito mal por dentro o que sera que eu tenho ? Obrigado

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    1. Olá! Desculpe o atraso gigantesco em responder, não tinha visto seu comentário! Você já tentou marcar uma consulta com um psicólogo? Eu suspeitaria em um primeiro momento de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Dê uma pesquisada na Internet e veja se você se identifica com os sintomas. Eu tentaria um tratamento psicológico com um terapeuta cognitivo/comportamental. Se você não perceber resultados em pouco tempo, procure um psiquiatra ou neurologista, porque esses pensamentos podem ser sim sequelas do uso de crack. Realmente sugiro que busque um tratamento mais intensivo. Mas o mais importante a princípio é você entender que o fato de sua cabeça produzir esses pensamentos não quer dizer que eles sejam verdadeiros! Por mais incômodos que sejam, busque não dar muita moral para eles.

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  3. Meu nome e Clarice e tenho catorze anos minha mae tem uma doença no peito que quando ela fica nervoza essa tau doença incha e ela fica sem ar eu tenho tanto medo de perder minha mae o medico disse que e muito perigoso e eu moro com meu pai mas por escolha dela e sinto que ela tenta me afastar dela pra nao sofrer quando tinha dez anos vi uma pessoa que amava muito morrer na minha frente com dessesete tiros ele era meu padrasto nao e normal pessoas gostarem de seu padrasto mas ele me criava desde pequena e era como um pai para mim e depois que ele morreu eu tentei ser forte pra ajudar minha mae e depois que ela me disse dessa doença meu mundo caiu fiquei com tanto medo de perdela que agora fico pensando em coisas ruins que podem acontecer com ela e nao consigo controlar meus pensamentos e mais forte do que eu oque que eu devo fazer. Nicolau

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    1. Olá! Situação difícil, hein? Você já conversou com a sua mãe sobre esse seu medo? Acho que seria interessante também conversar com um profissional... peça para seu pai levá-la a um psicólogo para conversar sobre isso, e não deixar que esse medo tome conta da sua vida. Também seria bom que sua mãe tivesse um acompanhamento psicológico, pois se essa doença é algo engatilhado pela ansiedade e nervosismo, é algo que ela pode controlar sim.

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  4. Nicolau, boa noite! Eu ultimamente tenho pensamentos que vou morrer e fico sentindo tudo quanto é doença. Fico angustiada e depressiva.

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  5. Ola Nicolau, sou Luana tenho 19 anos,eu medo e como ex numero 1 tenho medo de perder minha mae, e faço rituais para que isso não aconteca, mas tenho medo que possa ser verdade esses pensamentos, oq devo fazer a respeito? Muito obrigada

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  6. Ola Nicolau, sou Luana tenho 19 anos,eu medo e como ex numero 1 tenho medo de perder minha mae, e faço rituais para que isso não aconteca, mas tenho medo que possa ser verdade esses pensamentos, oq devo fazer a respeito? Muito obrigada

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    1. Olá! Desculpe a demora em responder. Isso provavelmente é um TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Você é de onde? Minha sugestão é buscar um terapeuta para te ajudar a lidar com isso, já que o TOC não é um problema simples. O que eu posso te adiantar é que as obsessões ligadas à perda de pessoas próximas e os rituais que delas decorrem geralmente são intensificados quando você está passando por períodos de estresse e dificuldades de lidar com problemas concretos da sua vida, então procure identificá-los e enfrentá-los. Mas não se preocupe, o pensamento é só um pensamento, ele não significa que nada de ruim vai acontecer com ninguém.

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  7. A paz! Meu filho de 19 anos tem síndrome de asperger e é muito depressivo, ele gosta de tudo que se trata de morte. Cemitérios, desenhos fúnebres, músicas fúnebres, sangue. Só desenha lindas garotas com fisionomia de terror, do tipo olhos sangrando, boca sangrando, segurando foices, espadas, simplesmente horríveis... Eu realmente fico preocupada. Já fez tratamento com psiquiatra, mas não deu certo, pois ele passa muito mal com os efeitos colaterais. O que o senhor acha desses gostos fúnebres dele? Me responda por favor! Obrigada e Deus o abençoe!

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    1. Olá! Olha, não acredito que seja algo que deva gerar preocupação a princípio. Pode ser só um gosto estético, e por trás dele pode haver um humor um pouco deprimido, mas nada que necessariamente caracterize uma patologia. Minha recomendação é que não o censure por esses gostos, e inclusive o fato de desenhar e expressar seu sentimentos de alguma forma deve ser estimulado. Você deve se preocupar se ele se mostrar uma pessoa excessivamente triste, fechada, sem interesse em atividades, agressiva, ou qualquer comportamento que possa fazer mal a ele ou a outras pessoas.

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